domingo, 20 de fevereiro de 2011

Do caminho

Da trilha estreita ao final chegado,
Aos fatigados pés dando alívio,
Envolto do hálito cinza do inverno,
Da imensa visão me apercebo em espanto:

Montanhas, desafios honrosos de antes,
Agora medonhos picos brumosos;
Um rio, dos perigos pensado o mais fácil,
Um tanto mais denso que a imagem criada.

Vislumbro um segundo o deixado.
Na distância risos, conhecidas faces,
Sonoras sereias convidando ao retorno.

Golpeado do sopro implacável do norte,
Esquivando a agudeza do solo,
Em silêncio, exclamo: “É hora de ir!”


Rafael Laurindo

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Adeus

O ar rarefeito
Tua aspereza
Minha aspereza
Nossa distância

O tremor dito
A visão turva
Minha agonia
Tua aspereza

O silêncio
Tua distância

O silêncio

O movimento brusco
A palavra falsa
Teu olhar em nada
Meu olhar em ti

Tua distância

O vazio

Eu


Rafael Laurindo

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Devaneio

Mostra-se ali divinal,
Musa alva do Olimpo;
Ri, e carrega no riso
Olhos ingênuos, astutos,
Algozes cruéis de minh’alma.

Corre, então, em redor,
Tomando a tudo de assalto,
Rico, sonoro instrumento,
Ao ar lançado de seus lábios,
A arrancar-me antes firmes muralhas.

Rafael Laurindo

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Imune

Deixa-me os olhos vermelhos!
São meus, me são caros.
Teus? Os motivos somente.

Pedaços de uma alma incontida,
Mal que, ao tê-lo, se é grato,
E ao qual, me parece, és imune.


Rafael Laurindo

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

À Tarde

Nessa tarde chuvosa,
Ouvindo a melancolia,
Sentindo o cheiro do passado,
Quero apenas seguir aqui,
Olhando o nada à janela
Enquanto vejo você.


Rafael Laurindo

sábado, 21 de agosto de 2010

A quando você partir

Queria que você, na partida,
Ao contemplar do que fica,
Pudesse ver, neste canto,
O semblante que lhe estendo agora;

Que, no pensamento, lá estando,
Das boas coisas passadas,
Pudesse vir o vislumbre
Do rir que minha boca oferece;

Que, ao doer da saudade futura,
A molhar sua face em tal hora,
Pudesse, feliz, lembrar do regalo
Que meu olho, anônimo, lhe deita.


Rafael Laurindo

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Despido

Despido, a carne treme;
Corta-me a ventania.
Buscando amparo quis tocar-te,
Mas teu espinho me rasgou os dedos.

Exposta, a ferida arde.
Maldigo a inocência minha.


Rafael laurindo